Joana Chagas
Médica Interna de Formação Específica de Medicina Geral e Familiar na Unidade de Saúde Familiar Jardim dos Plátanos | ULS Lisboa Ocidental
Margarida Peixoto
Docente Afiliada da NOVA Medical School | Faculdade de Ciências Médicas | Universidade Nova de Lisboa
Médica Interna de Formação Específica de Medicina Geral e Familiar na Unidade de Saúde Familiar Jardim dos Plátanos | ULS Lisboa Ocidental
O consumo de álcool em Portugal é uma questão cultural, estando frequentemente associado a momentos de convívio, celebração e relaxamento. No entanto, a Organização Mundial de Saúde alerta: não existe um nível seguro de consumo de bebidas alcoólicas. É importante desmistificar a ideia de que o problema reside apenas em quem ingere grandes quantidades ou chega ao estado de embriaguez: todo e qualquer consumo apresenta riscos, que aumentam proporcionalmente à quantidade ingerida.
O impacto na saúde pública é severo:
Em 2023, registaram-se mais de 40 mil internamentos hospitalares em Portugal atribuíveis ao álcool e, em 2021, a doença alcoólica foi responsável por 2.526 mortes. Além dos riscos individuais, a condução sob o efeito do álcool compromete a segurança de toda a comunidade.
O álcool é um fator de risco determinante para as principais causas de morte no nosso país, que são doenças cardiovasculares e cancro. Ao promover processos inflamatórios, contribui para o desenvolvimento e agravamento de hipertensão, obesidade, colesterol alto, arritmias e diabetes tipo 2, agravando significativamente o risco de enfartes (ataques cardíacos) e acidentes vasculares cerebrais (AVCs). A relação entre o álcool e o cancro é igualmente direta e depende da dose: quanto mais se bebe, maior o risco. O consumo de álcool altera o ADN, desregula os níveis hormonais e reduz as defesas do organismo, estando associado a cancros comuns em Portugal, como o cancro da mama, que é o cancro mais frequente nas mulheres em Portugal, e o cancro do cólon e reto, que é o segundo cancro mais frequente em Portugal.
Além destas patologias, o consumo regular de álcool aumenta o risco de desenvolver e agravar várias doenças, por exemplo:
- Aparelho digestivo: refluxo, gastrite, úlcera péptica, cirrose, pancreatite.
- Saúde mental e cerebral: ansiedade, depressão, insónia e demência.
- Fraqueza óssea, com maior risco de fraturas
- Imunossupressão, com maior risco de infeções
- Problemas sexuais, como infertilidade ou disfunção erétil
Como reduzir o consumo?
A evidência científica é clara: não existe um nível seguro de consumo de álcool. O objetivo deve ser a abstinência ou um consumo verdadeiramente ocasional e consciente.
Reduzir o consumo de álcool traz benefícios imediatos, como melhoria do sono, mais energia, melhor concentração e memória, e melhor controlo do peso e da tensão arterial. A longo prazo, reduz o risco das doenças mencionadas previamente.
A redução pode ser feita de forma progressiva, ao ritmo de cada pessoa, mas com uma meta clara: menos é melhor, zero é o ideal.
Algumas sugestões para reduzir o consumo são:
- Estabeleça metas claras: Defina antecipadamente um número máximo de bebidas para uma ocasião e cumpra-o.
- Mude o ambiente doméstico: Evite ter bebidas alcoólicas em casa e quebre o hábito de beber rotineiramente (por exemplo, ao jantar ou a ver televisão).
- Hidrate-se e alimente-se: Acompanhe sempre a bebida alcoólica com água e comida, pois isto ajuda a reduzir o efeito do álcool no organismo.
- Explore alternativas: Opte por versões sem álcool das suas bebidas favoritas.
- Reserve para exceções: Tente limitar o consumo apenas a momentos de brinde em ocasiões verdadeiramente especiais.
Se sentir dificuldade em reduzir o consumo ou se notar sintomas físicos ao tentar fazê-lo, procure apoio junto do seu Médico de Família.
Lembre-se: no que toca ao álcool, quanto menos, melhor.
Bibliografia
- Perfis do cancro por país — Portugal 2025, OECD (2025) – Disponível em: https://www.oecd.org/content/dam/oecd/pt/publications/reports/2025/02/eu-country-cancer-profile-portugal-2025_699bde59/ffdcd7a9-pt.pdf
- The Drink in Your Glass Is a Group 1 Carcinogen. So Why Do We Toast With It?, OncoDaily (2026) – Disponível em: https://oncodaily.com/oncolibrary/group-1-carcinogen
- No level of alcohol consumption is safe for our health, World Health Organization (2023) – Disponível em: https://www.who.int/europe/news/item/04-01-2023-no-level-of-alcohol-consumption-is-safe-for-our-health
- Dependências: alcoolismo, SNS24 (2026). Acedido em 18 de fevereiro de 2026 – Disponível em: https://www.sns24.gov.pt/pt/tema/dependencias/alcoolismo/
- Vale a pena um janeiro seco? Ano novo convida a refletir sobre o consumo de álcoo, Trofa Saúde (2025) – Disponível em: https://www.trofasaude.pt/artigos/vale-a-pena-um-janeiro-seco-ano-novo-convida-a-refletir-sobre-o-consumo-de-alcool/
- Sinopse Estatística 2023 Álcool, ICAD Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (2023) – Disponível em: https://www.icad.pt/DocumentList/GetFile?id=909&languageId=1
