Consumo de Álcool: Compreender os Riscos para a sua Saúde

Mai 22, 2026 | Artigos

Joana Chagas

Médica Interna de Formação Específica de Medicina Geral e Familiar na Unidade de Saúde Familiar Jardim dos Plátanos | ULS Lisboa Ocidental

Margarida Peixoto

Docente Afiliada da NOVA Medical School | Faculdade de Ciências Médicas | Universidade Nova de Lisboa
Médica Interna de Formação Específica de Medicina Geral e Familiar na Unidade de Saúde Familiar Jardim dos Plátanos | ULS Lisboa Ocidental

O consumo de álcool em Portugal é uma questão cultural, estando frequentemente associado a momentos de convívio, celebração e relaxamento. No entanto, a Organização Mundial de Saúde alerta: não existe um nível seguro de consumo de bebidas alcoólicas. É importante desmistificar a ideia de que o problema reside apenas em quem ingere grandes quantidades ou chega ao estado de embriaguez: todo e qualquer consumo apresenta riscos, que aumentam proporcionalmente à quantidade ingerida.

O impacto na saúde pública é severo:

Em 2023, registaram-se mais de 40 mil internamentos hospitalares em Portugal atribuíveis ao álcool e, em 2021, a doença alcoólica foi responsável por 2.526 mortes. Além dos riscos individuais, a condução sob o efeito do álcool compromete a segurança de toda a comunidade.

O álcool é um fator de risco determinante para as principais causas de morte no nosso país, que são doenças cardiovasculares e cancro. Ao promover processos inflamatórios, contribui para o desenvolvimento e agravamento de hipertensão, obesidade, colesterol alto, arritmias e diabetes tipo 2, agravando significativamente o risco de enfartes (ataques cardíacos) e acidentes vasculares cerebrais (AVCs). A relação entre o álcool e o cancro é igualmente direta e depende da dose: quanto mais se bebe, maior o risco. O consumo de álcool altera o ADN, desregula os níveis hormonais e reduz as defesas do organismo, estando associado a cancros comuns em Portugal, como o cancro da mama, que é o cancro mais frequente nas mulheres em Portugal, e o cancro do cólon e reto, que é o segundo cancro mais frequente em Portugal.

Além destas patologias, o consumo regular de álcool aumenta o risco de desenvolver e agravar várias doenças, por exemplo:

  • Aparelho digestivo: refluxo, gastrite, úlcera péptica, cirrose, pancreatite.
  • Saúde mental e cerebral: ansiedade, depressão, insónia e demência.
  • Fraqueza óssea, com maior risco de fraturas
  • Imunossupressão, com maior risco de infeções
  • Problemas sexuais, como infertilidade ou disfunção erétil

Como reduzir o consumo?

A evidência científica é clara: não existe um nível seguro de consumo de álcool. O objetivo deve ser a abstinência ou um consumo verdadeiramente ocasional e consciente.

Reduzir o consumo de álcool traz benefícios imediatos, como melhoria do sono, mais energia, melhor concentração e memória, e melhor controlo do peso e da tensão arterial. A longo prazo, reduz o risco das doenças mencionadas previamente.

A redução pode ser feita de forma progressiva, ao ritmo de cada pessoa, mas com uma meta clara: menos é melhor, zero é o ideal.

Algumas sugestões para reduzir o consumo são:

  1. Estabeleça metas claras: Defina antecipadamente um número máximo de bebidas para uma ocasião e cumpra-o.
  2. Mude o ambiente doméstico: Evite ter bebidas alcoólicas em casa e quebre o hábito de beber rotineiramente (por exemplo, ao jantar ou a ver televisão).
  3. Hidrate-se e alimente-se: Acompanhe sempre a bebida alcoólica com água e comida, pois isto ajuda a reduzir o efeito do álcool no organismo.
  4. Explore alternativas: Opte por versões sem álcool das suas bebidas favoritas.
  5. Reserve para exceções: Tente limitar o consumo apenas a momentos de brinde em ocasiões verdadeiramente especiais.

Se sentir dificuldade em reduzir o consumo ou se notar sintomas físicos ao tentar fazê-lo, procure apoio junto do seu Médico de Família.

Lembre-se: no que toca ao álcool, quanto menos, melhor.

Bibliografia