Ana Sintra Coelho
Médica Interna de Formação Específica de Medicina Geral e Familiar na Unidade de Saúde Familiar Oriente | ULS São José
Joana Azeredo
Docente da NOVA Medical School | Faculdade de Ciências Médicas | Universidade Nova de Lisboa Médica
Médica Especialista em Medicina Geral e Familiar na Unidade de Saúde Familiar Jardim dos Plátanos | ULS Lisboa Ocidental
É comum usarmos o termo “menopausa” para descrever anos de mudanças, mas, tecnicamente, ela é apenas um momento: a última menstruação. O diagnóstico definitivo só é confirmado após 12 meses consecutivos de ausência de período, sem o uso de contracetivos. Geralmente, este marco ocorre entre os 45 e 55 anos, embora cada corpo tenha o seu próprio ritmo.
Caso tenha sido submetida a uma histerectomia (cirurgia de remoção do útero) mas sem remoção dos ovários, pode ser mais difícil perceber quando estará a passar por esta fase. No entanto, mesmo não tendo útero, poderá ter os restantes sintomas.
As Fases da Transição
Esta mudança não acontece de um dia para o outro. É importante distinguir os períodos:
- Peri-menopausa: O intervalo que antecede a menopausa, que pode ser marcado por ciclos menstruais mais irregulares (atrasos, avanços ou faltas temporárias de menstruação) e pelos primeiros sintomas.
- Pós-menopausa: A fase que se inicia um ano após o último período e que perdura pelo resto da vida da mulher.
Fertilidade: Enquanto ocorrerem menstruações, mesmo que estas sejam menos frequentes e que passem meses sem menstruar, é possível engravidar, pelo que deve tomar as devidas precauções caso não seja essa a sua intenção.
O Impacto no Organismo: O Que Esperar?
A redução hormonal afeta cada mulher de forma única. Enquanto algumas atravessam esta fase sem grandes sobressaltos, outras enfrentam desafios significativos:
- Sintomas Vasomotores (Afrontamentos): Os famosos “calores” que surgem subitamente na parte superior do corpo (cabeça, pescoço e costas), muitas vezes acompanhadas de suores e palpitações, que duram alguns minutos, podendo causar calafrios, tremores ou sensação de ansiedade. São mais frequentes à noite e podem interferir com o sono.
- Alterações da Qualidade do Sono: Dificuldade em adormecer ou despertares frequentes, muitas vezes agravados pelos calores noturnos.
- Queixas de Saúde Mental e Cognição: Flutuações de humor, maior propensão à ansiedade ou depressão, além de alterações de memória e dificuldade de concentração e diminuição do desejo sexual.
- Queixas Geniturinárias: Podem ocorrer alterações vaginais, como a secura, ardor e irritação e consequentemente causar dor na relação sexual; e/ou urinárias, como sentir uma necessidade de ter de urinar urgentemente e maior propensão para infeções urinárias.
- Alterações Estéticas (cabelo e pele): A pele tende a perder elasticidade e espessura e podem surgir manchas (pigmentação), o cabelo pode enfraquecer e podem aparecer mais pelos na face e outras zonas do corpo.
- Queixas Osteoarticulares: Há um risco acrescido de perda de densidade óssea (osteoporose) e de massa muscular; e maior tendência para as dores musculares e articulares.
- Alterações Metabólicas: Possibilidade de aumento da gordura corporal, dos níveis de colesterol e outras gorduras, com aumento do risco de diabetes e de hipertensão, aumentando consequentemente o risco de sofrer um enfarte ou um AVC.
Estratégias de Gestão e Autocuidado
Viver esta fase com qualidade de vida é possível. Pequenos ajustes no quotidiano podem fazer uma diferença significativa:
Estilo de Vida e Nutrição
Beba entre 1,5L a 2L de água por dia, mantenha uma alimentação equilibrada, pratique exercício físico e evite o consumo de álcool e tabaco. Isto irá ajudar a fortalecer os ossos e músculos e a evitar o excesso de peso, que por sua vez pode aumentar o risco de secura vaginal.
Dicas Práticas para o Dia a Dia
- Higiene e Conforto: Mantenha a pele hidratada, evite lavagens íntimas excessivas (que podem irritar a mucosa) e opte por lubrificantes à base de água durante as relações sexuais.
- Higiene do Sono: Mantenha horários regulares, evite sestas longas e refeições pesadas ou estimulantes (café, álcool, tabaco) antes de dormir.
- Controlo Térmico: Privilegie ambientes frescos e roupas por camadas.
- Reforço Pélvico: Fale com o seu médico sobre os exercícios de Kegel para fortalecer os músculos pélvicos e prevenir a incontinência.
E lembre-se: a menopausa não é o fim da vitalidade da mulher, mas sim o início de um novo capítulo que exige novos cuidados.
São necessários exames para saber se está na perimenopausa?
Para a maioria das pessoas, não está recomendada a realização de análises ou exames para avaliar se se está ou não na perimenopausa. Isto porque um único exame de sangue não fornece informações suficientes para determinar se estará ou não, são necessárias informações sobre queixas e sintomas, tornando este um diagnóstico clínico, sem necessidade de exames.
Todas as pessoas têm indicação para fazer suplementação ou tratamento? Quando consultar a sua equipa de família?
Deverá consultar a sua Equipa de Família quando estes sintomas surgirem e tiverem impacto na sua qualidade de vida, pois poderá ter indicação para suplementação ou Terapêutica Hormonal de Substituição como forma de gerir melhor as queixas inerentes a esta fase da vida. Consulte também o seu Médico se a menstruação desaparecer antes dos 40 anos ou se voltar a sangrar após a menopausa.
Bibliografia:
- Guia Prático de Saúde – 2ª Edição Portuguesa – disponível em
- https://apmgf.pt/wp-content/uploads/2025/11/Guia-Pratico-de-Saude-Edicao-2025.pdf
- Consenso Nacional sobre Menopausa 2021 – disponível em https://spginecologia.pt/wp-content/uploads/2021/10/Consenso-Nacional-Menopausa-2021.pdf
- Patient education: Menopause (The Basics), em UpToDate, Connor RF (Ed), Wolters Kluwer. Acedido em 28 de janeiro de 2026 – disponível em https://www.uptodate.com/contents/menopause-the-basics?topicRef=7395&source=see_link
