Joana Estorninho
Médica Interna de Formação Específica de Medicina Geral e Familiar na Unidade de Saúde Familiar Quinta das Lindas| Unidade Local de Saúde Lisboa Ocidental
Ana Rita Maria
Docente da NOVA Medical School | Faculdade de Ciências Médicas | Universidade Nova de Lisboa Médica
Médica Especialista em Medicina Geral e Familiar na Unidade Local de Saúde Lisboa Ocidental
As quedas são um dos problemas de saúde mais frequentes na população idosa e representam a principal causa de acidente após os 65 anos. Embora muitas vezes sejam encaradas como “normais da idade”, a verdade é que não devem ser consideradas inevitáveis. Pelo contrário, na maioria dos casos, as quedas podem ser prevenidas.
Uma queda define-se como um evento involuntário em que a pessoa acaba no chão ou num nível inferior, com ou sem lesão associada. Pode acontecer num instante — ao levantar-se da cama, ao caminhar no corredor ou ao entrar na casa de banho — mas as suas consequências podem ser profundas e duradouras.
Porque acontecem as quedas?
À medida que envelhecemos, o corpo sofre alterações naturais: a visão pode diminuir, a audição pode ficar menos apurada, a força muscular reduz-se e o equilíbrio torna-se mais frágil. Os reflexos ficam mais lentos e a capacidade de reagir rapidamente a um obstáculo diminui. Estas alterações aumentam o risco de queda.
Para além das mudanças próprias do envelhecimento, existem doenças que contribuem para este risco, como problemas cardiovasculares (por exemplo, quedas de tensão arterial ao levantar), doenças neurológicas (como o AVC ou a doença de Parkinson), alterações cognitivas, depressão, ansiedade, osteoporose e doenças articulares.
A medicação é outro fator importante. Alguns medicamentos — nomeadamente anti-hipertensores, sedativos, antidepressivos, benzodiazepinas e diuréticos — podem provocar tonturas, sonolência ou alterações do equilíbrio, aumentando o risco de cair. Por isso, a revisão periódica da medicação pelo médico é essencial.
Mas as quedas não dependem apenas da pessoa. O ambiente desempenha um papel determinante. Tapetes soltos, pisos molhados, iluminação insuficiente, escadas sem corrimão, ausência de barras de apoio na casa de banho, mobiliário instável ou mal distribuído e calçado inadequado são causas frequentes de quedas dentro de casa. Pequenos detalhes podem transformar o lar num espaço de risco — ou num espaço seguro.
Quais são as consequências?
As quedas podem provocar fraturas (especialmente do colo do fémur), traumatismos cranianos, entorses e contusões. Muitas vezes implicam hospitalização, perda de mobilidade e necessidade de reabilitação.
No entanto, as consequências não são apenas físicas. Após uma queda, é comum surgir medo de voltar a cair. Este medo pode levar à diminuição da atividade física, ao isolamento social e à perda de confiança. Com menos movimento, há maior perda de força muscular e equilíbrio, o que paradoxalmente aumenta ainda mais o risco de novas quedas. Cria-se, assim, um ciclo de fragilidade que compromete a autonomia e a qualidade de vida.
A boa notícia: é possível prevenir
A prevenção das quedas deve ser multifatorial, isto é, atuar simultaneamente sobre a pessoa, o ambiente e os cuidados de saúde, por exemplo, prática de exercício físico, segurança em casa ou revisão da medicação.
Avaliar o risco é o primeiro passo
Qualquer idoso que tenha sofrido uma queda — ou que apresente alterações no equilíbrio, na marcha ou tonturas — deve ser avaliado por um profissional de saúde. É importante analisar o histórico de quedas anteriores, as doenças existentes (incluindo défice visual), a medicação em curso, a força muscular, o equilíbrio e o estado cognitivo.
Identificar precocemente os fatores de risco permite intervir antes que ocorra uma queda.
O exercício físico é uma das melhores “medicações”
A prática regular de exercício físico é uma das estratégias mais eficazes para reduzir o risco de queda.
A evidência encontrou que os programas de exercício específicos para idosos — sobretudo dirigidos ao equilíbrio e força das pernas — podem reduzir o número de quedas em cerca de um quarto nas pessoas que vivem em casa. Exercícios adaptados à idade e às capacidades da pessoa ajudam a melhorar a força muscular, o equilíbrio, a coordenação e o tempo de reação.
Caminhar diariamente, realizar exercícios de fortalecimento muscular, praticar atividades como Tai-Chi ou exercícios de equilíbrio e flexibilidade são exemplos simples e eficazes. Mesmo idosos com limitações podem beneficiar de exercícios realizados sentados ou com apoio.
Manter o corpo ativo é fundamental para manter a autonomia.
Tornar a casa mais segura
Os programas de avaliação e modificação de riscos em casa reduzem tanto o número de quedas como o risco de cair em idosos que vivem na comunidade. As alterações no ambiente doméstico podem incluir:
- Retirar ou fixar tapetes soltos;
- Manter o chão seco e livre de objetos;
- Melhorar a iluminação, especialmente no trajeto entre o quarto e a casa de banho;
- Instalar barras de apoio na casa de banho;
- Preferir bases de duche em vez de banheiras;
- Garantir corrimões firmes nas escadas;
- Ajustar a altura da cama e das cadeiras para facilitar o sentar e levantar;
- Utilizar calçado fechado, com sola antiderrapante.
Estas medidas simples podem reduzir significativamente o risco de queda.
Utilizar corretamente os auxiliares de marcha
Bengalas, andarilhos e cadeiras de rodas devem estar corretamente adaptados à altura do utilizador e em boas condições de segurança. Um auxiliar mal ajustado pode aumentar o risco em vez de o diminuir.
Saber o que fazer em caso de queda
Se ocorrer uma queda, é importante avaliar se existe dor intensa, deformidade ou incapacidade de mexer algum membro. Perante suspeita de fratura ou traumatismo grave, não se deve tentar levantar a pessoa e deve ser solicitada assistência médica.
Ensinar o idoso a levantar-se lentamente, a mudar de posição com calma e a pedir ajuda quando necessário faz parte da prevenção.
Preservar a autonomia é preservar qualidade de vida
As quedas não são um destino inevitável do envelhecimento. São, na maioria das situações, preveníveis. Cuidar da força, do equilíbrio, da medicação e do ambiente doméstico é investir na segurança e na independência.
Envelhecer com qualidade significa manter autonomia, confiança e participação ativa na vida diária. A prevenção das quedas é um passo essencial nesse caminho.
Referências Bibliográficas
- Direção-Geral da Saúde. (2019). Norma n.º 008/2019: Prevenção e intervenção na queda do adulto em cuidados hospitalares. Lisboa: DGS.
- Fundación MAPFRE. (2008). Riscos domésticos entre os idosos: Guia de prevenção destinado a profissionais. Madrid: Fundación MAPFRE. (Tradução e edição portuguesa: Santa Casa da Misericórdia de Lisboa).
- Rede Regional de Cuidados Continuados Integrados – Direção Regional da Solidariedade Social. (s.d.). Manual do cuidador: Prevenção de quedas em idosos no domicílio – Guia prático ilustrado. Governo dos Açores.
- Guirguis-Blake JM, Michael YL, Perdue LA, Coppola EL, Beil TL, Thompson JH. Interventions to Prevent Falls in Community-Dwelling Older Adults: A Systematic Review for the U.S. Preventive Services Task Force [Internet]. Rockville (MD): Agency for Healthcare Research and Quality (US); 2018 Apr. Report No.: 17-05232-EF-1. PMID: 30234932.
- Gillespie LD, Robertson MC, Gillespie WJ, Sherrington C, Gates S, Clemson L, Lamb SE. Interventions for preventing falls in older people living in the community. Cochrane Database of Systematic Reviews 2012, Issue 9. Art. No.: CD007146. DOI: 10.1002/14651858.CD007146.pub3. Accessed 09 March 2026.
