Cérebro saudável ao longo da vida: o que saber sobre demência

Nov 25, 2025 | Artigos

Hugo Tavares Matias
Interno de Formação Específica de Medicina Geral e Familiar na Unidade de Saúde Familiar Delta | ULS Lisboa Ocidental

Mariana Braga
Docente da NOVA Medical School | Faculdade de Ciências Médicas | Universidade Nova de Lisboa Médica
Médica Especialista em Medicina Geral e Familiar na Unidade de Saúde Familiar Patrão Lopes | ULS Lisboa Ocidental

Com o avançar da idade, os esquecimentos tornam-se uma preocupação frequente. Pequenos lapsos são normais, mas quando começam a interferir com o  dia a dia é natural que surja a dúvida: será apenas um esquecimento ou poderá  tratar-se de uma doença da memória?

É habitual esquecermo-nos de pormenores, mas quando estes episódios se tornam persistentes ou limitam tarefas habituais, devem ser avaliados. Uma identificação precoce permite reconhecer sintomas, compreender a sua causa e adotar medidas que ajudem a prevenir ou atrasar a sua evolução.

O défice cognitivo e a demência são problemas comuns e com impacto significativo, tanto a nível mundial como em Portugal. No nosso país, os estudos  disponíveis estimam que a prevalência de demência varia entre 7,8% e 9,2%. Estes números poderão, no entanto, estar subestimados, já que muitas situações não chegam a ser identificadas ou diagnosticadas.

A demência corresponde a um conjunto de doenças que afetam o funcionamento do cérebro, provocando alterações da memória, do raciocínio e de outras capacidades essenciais, interferindo de forma significativa na autonomia e nas tarefas quotidianas. Embora os problemas de memória sejam os mais conhecidos, podem também surgir dificuldades de concentração, tomada de decisões, orientação, alterações do humor ou, em fases mais avançadas, ideias de acontecimentos que não correspondem à realidade.

Por vezes, a própria pessoa apercebe-se destas mudanças; noutras, são sobretudo  familiares ou amigos que identificam alterações no comportamento ou  desempenho. Perante estes sintomas, é importante realizar uma avaliação médica completa para esclarecer o quadro e perceber de que forma está a afetar o dia a dia. Esta avaliação envolve entrevistas clínicas, testes neuropsicológicos formais, análises e exames de imagem.

Não existe forma de prever quem irá desenvolver demência. Contudo, há fatores  que podem reduzir o risco. Manter estilos de vida saudáveis — como praticar exercício físico, preservar uma vida social ativa, e controlar fatores de risco cardiovascular como a tensão arterial, o colesterol ou a diabetes – desempenha um papel importante. Garantir boa saúde auditiva e visual, assim como tratar doenças mentais, contribui igualmente para uma melhor saúde cognitiva, diminuindo o isolamento e promovendo as relações interpessoais. Atividades culturais, aprendizagem contínua e interação social são também formas relevantes de manter o cérebro ativo.

Consoante o tipo de demência, podem existir tratamentos que aliviam sintomas ou atrasam a sua progressão. Contudo, para muitos tipos de demência, o tratamento disponível centra-se sobretudo no controlo dos sintomas e na otimização da saúde geral. À medida que a doença evolui, tarefas do quotidiano como cozinhar, gerir a casa ou pagar contas tornam-se difíceis e, em fases mais avançadas, podem surgir dificuldades em cuidados básicos, como a higiene ou a alimentação. O apoio de cuidadores torna-se, assim, essencial.

É igualmente importante adaptar o ambiente doméstico para garantir segurança, especialmente quando a pessoa vive sozinha. A integração em centros de dia ou lares, onde existe supervisão, estimulação cognitiva e convívio social, são alternativas importantes a considerar. Deve ainda considerar-se quem poderá assumir decisões quando a pessoa já não o conseguir fazer, assegurando que os seus desejos e necessidades são respeitados. A condução é outro tema delicado, devendo ser discutido com o médico assistente para determinar o momento adequado para deixar de conduzir.

Garantir seguimento médico regular e adesão à medicação é fundamental. As  necessidades das pessoas com demência mudam ao longo do tempo, pelo que  o plano de cuidados deve ser revisto periodicamente. Esta revisão permite ajustar estratégias, identificar recursos e orientar atividades que contribuam para o bem

estar da pessoa.

Procurar ajuda cedo permite responder de forma mais eficaz às necessidades e  melhorar a qualidade de vida da pessoa e dos que a rodeiam.

Bibliografia

  • Norma de Orientação Clínica nº 053/2011, Abordagem Terapêutica das Alterações Cognitivas, atualizada a 21/04/2023
  • Patient education: Dementia (including Alzheimer disease) (The Basics), em UpToDate, Connor RF (Ed), Wolters Kluwer. Acedido em 17 de Novembro, 2025.